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Aos 67 anos, morre Toninha Lima, uma atriz de fato
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Faleceu no último dia 30, aos 67 anos, a professora Antonia Andrade de Lima, deixando a filha Ana
Paula, o neto Yago Manoel e a mãe. Toninha (ou Toninha do Teatro) como era conhecida, era filha do
lavrador Manoel Francisco de Lima e da doméstica Alaíde Andrade de Lima; nasceu no dia 11 de janeiro
de 1942 em Campo do Brito, em Sergipe, e veio ainda jovem para São Paulo; depois para Rancharia.
Durante vários anos esteve à frente do Grupo de Teatro Amador Pé na Estrada. Dinâmica e incansável
guerreira pela existência do teatro em Rancharia. Não esmorecia diante das dificuldades e da falta de
interesse institucional; fez vários cursos de teatro e organizou outros tantos, dando oportunidade a
jovens conhecerem as minúcias dessa arte, fazendo que seus sonhos se transformassem em fantasias
reais através da arte de representar. Apesar do preconceito, das chacotas, conquistou o direito de ser
uma atriz. Encenou e dirigiu peças na cidade e levou seus pupilos para encantar o público em outras
localidades. Promoveu espetáculos nas improvisadas instalações da Casa da Cultura, apesar de todas
as dificuldades; o último espetáculo que trouxe foi a polêmica Mal Secreto. Palmas para ela. (M.A.B.)
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Uma mulher do teatro
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Quem nunca a viu dentro de sua Brasília branca para cima e para baixo, que atire a primeira pedra. Ou quem nunca a
viu batendo o pé e brigando pelo (pouco) direito do teatro e, principalmente, do Pé na Estrada. Não fui ao velório por
covardia, confesso. Preferi ficar com a imagem que sempre tive. Aquela mulher divertida, alto astral, contagiante e o
principal: guerreira. Se existe alguém nessa pequena cidade que merece algum mérito pela cultura e pelo teatro
ranchariense, esse alguém é ela. Ela, sem dúvida alguma, a mãe de todos os atores que nasceram em Rancharia.
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A atriz, diretora, fundadora, produtora e muito mais do Grupo de Teatro Amador de Rancharia Pé na Estrada. Há doze
anos lutando bravamente, resistindo a desaforos, ignorância, falta de vontade, indiferença e cinismo. Vão-se os bons,
ficam os maus. Doze anos de Pé na Estrada, doze anos da luta dessa mulher. Uma senhora de seus setenta e poucos
anos com uma força que muitas jovens de vinte não têm. A sua vontade de fazer e o seu amor pela arte e pela vida
são coisas que deixavam qualquer um de boca aberta, e quem sabe até, com certa inveja. Ou pior, a chamavam de
louca. Mas ela não se importava, "deixem que fale de mim, eu sou feliz".Quantas vezes a vi reclamando e dizendo que
desistiria de tudo, sendo que dois dias depois lá estava ela, batendo na porta de casa (entrava gritando meu nome,
batendo na porta e rodeando as janelas, impacientemente) cheia de papéis e milhões de coisas para fazer. Essa sim
foi uma mulher do teatro. Morreu pelo seu amor ao teatro, isso é fato.
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E se um dia (ah!, se esse um dia chegar!) Rancharia for digna de ter um Teatro decente, ele deverá - e eu repito -
DEVERÁ levar o nome de Toninha Lima. Sem mais, nem menos. E por favor, não digo um teatrinho, mas um Teatro. Com
coxias, camarins, palco, poltronas, iluminação, aparelhagem de som, banheiros e água (pois nem a isso tínhamos
direito) e ainda, a cara dela lá, junto com seu nome. Mas ainda será pouco, perante o quanto que essa mulher lutou.
Forte, sorridente, disposta... Se não tem cadeiras, vamos buscá-las. Se não tem ninguém para limpar o chão, vamos
limpa-lo. Se não tem dinheiro, ela tira do próprio bolso. Se não tem almoço, ela faz. Se não tem hotel, ela hospeda. Se
não tem nada, vai assim mesmo. Se não tem tempo, ela se desdobra em duas, três, quatro ou cinco se necessário for.
Prazer. Ela tinha prazer em fazer aquilo. E víamos esse prazer em seus olhos e em seu sorriso a cada apresentação
concluída e a cada conquista (mesmo que pequena) concebida. Acho que por isso ela nunca desistiu dentro desses
doze anos: porque sentia prazer. Fazia para si própria. Pouca gente sabe disso e poucos conhecem essa Toninha que
conheci.
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Essa é a Toninha que eu quis deixar na minha memória, por isso preferi não ir ao velório. Em nome de todos que
passaram pelo Pé na Estrada nesses doze anos, eu venho aqui para agradecer por tudo. Não tarde, pois acredito que
você continua aqui, dentro da Casa da Cultura e dentro da Secretaria, ainda lutando. Se hoje somos atores, foi graças
a essa brava guerreira.
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E para nós, que aqui ficamos, nos basta lutar. Para que o Teatro Municipal Toninha Lima não passe apenas de um
sonho, mas do resultado de sua luta a cada dia nesses anos todos.
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"Sim sou muito louco, não vou me curar / Já não sou o único, que encontrou a paz /
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Mas louco é quem me diz / E não é feliz, eu sou feliz"
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Luana Almeida, atriz
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www.molho-de-pimenta.blogspor.com
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ETERNOS APLAUSOS PARA UMA ESTRELA
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"Mas louco é quem me diz que não é feliz, não é feliz..."
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Aqui, longe, estudo para que o teatro seja minha profissão. Mas eu sei que a coisa mais preciosa que aprendi sobre
essa arte não está nos livros da Universidade. No meu primeiro dia de aula aqui em São Paulo, dentro de um teatro
com poltronas estofadas, em cima de um palco enorme iluminado por dezenas de holofotes, perguntaram-me sobre
minhas experiências teatrais anteriores. Com muito orgulho, contei um pouco dos quase 8 anos que estive no Grupo
Pé na Estrada, em Rancharia, onde uma tal senhorinha me ensinou muito mais que fazer teatro. Antes de tudo, essa
senhorinha me ensinou a viver o teatro.
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A Toninha deu vida ao Pé na Estrada, que agora em novembro completou 12 anos. Sem o palco ideal, com cadeiras de
lata, luzes que conseguíamos improvisar, nós colocamos em cena - ao longo desse tempo, em cada espetáculo - a
força que nos unia e nos fazia lutar pelo sonho de ver nascer de verdade a cultura em nossa cidade. Tudo tão precário
em estrutura, mas tão cheio de vontade! Nós nos entendíamos. Nós estávamos uns pelos outros, e pela arte. Nós
sabíamos que quando a senhorinha estava nervosa, gritando seus palavrões, era pra nos lembrar do compromisso
que assumimos quando decidimos participar de um grupo. Era muita energia dentro daquela baixinha! Só lamento por
aqueles que tiveram a oportunidade e não tiveram a sensibilidade para perceber o quanto ela estava disposta a doar.
Lamento por aqueles que, por acharem o sonho dela impossível, quase a impossibilitaram de brilhar. Quase. Eu e
todos os que se permitiram algum dia, no teatro ou não, receber um pouquinho dessa luz que tinha dentro dela fomos
privilegiados. É em nosso nome que escrevo.
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Antes de entrar em cena ela queria saber se tudo estava no lugar, queria organizar o camarim, espiar pra ver quem
estava sentado do lado de lá da cortina. Acalmava a gente com todo o carinho, com uma música e uma oração. Ela
cantava "Meu cavalo tá cansado, meu cavalo quer voar. Atuar, atuar, pra poder voar!", gritava "MERDAAA!" e pisava no
palco pra ser feliz acima de tudo. O público era sua maior alegria. Para eles, ela fazia um discurso no fim de cada
espetáculo e só parava pra receber mais aplausos. Merecidos aplausos.
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Eu não pude estar em Rancharia para aplaudir pela última vez o espetáculo que foi a vida da Toninha. Mas ela nunca
saiu de cena e deixou o público sem uma centelha de seu brilho. Ela fica viva pra sempre no palco, nas coxias, em nós.
A minha, nossa, grande mestra de teatro e de vida deixou o palco com a felicidade e a força de sempre, pra brilhar em
outros palcos. O cavalo dela se cansa de ficar parado. E ele sabe voar muito longe.
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Parabéns, grande estrela!
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Ficamos aqui para continuar o sonho e a luta.
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Renan Dias
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