Atual: Porque adotou o Rio de Janeiro?
Amir Haddad: O ambiente cultural do Rio é muito propício para o meu trabalho. Embora São Paulo seja uma cidade
muito maior, tenha mais dinheiro e investimentos, não tem a identidade cultural que o Rio tem. O elemento, a influência
da cultura negra é mais forte; a cultura que os subúrbios e os morros produzem é muito grande. Já São Paulo a
composição da população é mais nítida, quase não tem essa cultura localizada e tem muita influência estrangeira. A
própria interferência da cultura das populações mais pobres de São Paulo é mais violenta, o movimento negro, por
exemplo, tem conotações sociais mais fortes e no Rio já é mais descontraído. O Rio é o meu caldo; dentro daquelas
águas eu me sinto bem.
Atual: Quais são seus últimos trabalhos?
Amir: Tenho viajado pelo Brasil inteiro. Dependendo do período meu centro de trabalho é o norte, nordeste, centro
oeste. Agora estou trabalhando um projeto importante na Amazônia, no Amapá, em Goiás Velho, que é patrimônio
histórico da humanidade, num esforço de recuperação e preservação da identidade cultural da população dessa
região. Também estou começando um trabalho em Búzios, uma zona que sofre uma invasão turística de alto poder
aquisitivo. Essas regiões estão sofrendo um processo de descaracterização muito grande e a população está
ameaçada de perder sua identidade; meu trabalho junto à população é no sentido de fortalecer sua identidade cultural.
Atual: Como você desenvolve esse trabalho?
Amir: Trabalho diretamente com a população que não tem acesso à informação, no sentido de proporcionar o desenvolvimento da cidadania; podemos
chamar de um trabalho de educação popular. É uma forma de criar uma cidadania de melhor qualidade. Há muito tempo o meu trabalho não fica restrito ao
núcleo de artistas da cidade.
Atual: O teatro na rua, da qual você é precursor, faz parte do passado?
Amir: Não. Nada do que eu faço hoje eu teria feito se tivesse continuado trabalhando nas salas elitizadas. As salas fechadas atendem uma parcela mínima
da população e tem uma ética e uma estética própria do grupo que as freqüentam. O que começou a mudar minha vida foi quando eu consegui me libertar
desse aprisionamento ideológico e fui trabalhar nas praças, com a população, sem distinção de classes. Você não escolhe quem vai estar em volta de você.
Tem cachorro, mendigo, polícia, vem todo tipo de gente. Eu era uma pessoa com a respeitabilidade de um trabalho em salas fechadas, diretor premiado
etecetera e tal.

Marcos Barbosa