Sem jabá não tem sucesso: "O jabá é preponderantemente exigido", afirma Dino
Terceiro dos doze filhos de José Lázaro Franco e Maria das Dores Ramos Franco, Dino Franco nasceu Osvaldo Franco na cidade paulista de
Paranapanema, no dia 8 de setembro de 1936, mas foi registrado na vizinha Conceição do Monte Alegre. Antes de se tornar um compositor famoso,
trabalhou na roça colhendo algodão; viveu em Rancharia e Paraguaçu Paulista, onde fez o Tiro de Guerra e começou sua carreira musical na Rádio
Marconi, passando também pelos microfones da extinta Rádio Difusora de Rancharia. Começou a compor no ano de 1951 e afirma ter composto milhares
de obras; Dança da Chuva e Tafuleira, em parceira com Piratininga, foi sua primeira gravação, em 78 rotações; O Sertanejo é um Forte é um de seus
maiores sucessos.
Aposentado, veio para Rancharia há quase cinco anos, depois de passar por Mogi Guaçu e Ivinhema, devido aos parentes, às raízes e "porque sempre
busquei um lugar tranqüilo prá viver", mas não parou de criar as composições que lhe deram prestigio e sucesso por todo o país. Sua obra lhe garantiu
vaga na Academia Municipalista Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira número 14 que pertenceu ao compositor João Pacífico.
Antes de ser Dino Franco e compor dupla com Mouraí, atuou em outras duplas onde usava pseudônimos como Pirassununga e Junqueira, e tem
parcerias com as mais famosas expressões sertanejas do país, tendo se apresentado em várias regiões do território nacional. Seu primeiro trabalho com
Mouraí foi Três Namoradas.
Homem de hábitos simples, Dino vive exclusivamente da música e já perdeu a conta de quantos discos gravou. Diz que já ganhou muito dinheiro "com
direito artístico e de vendagem", e muitas homenagens - vários diplomas estão pendurados pelas paredes da sala - mas como ele mesmo diz, "tenho
diplomas, troféus, mas a gente não come homenagens, mas sim do trabalho realizado".
Ganhador de dois festivais de música sertaneja, o primeiro do Brasil em 1967 com a música Natureza, com Abel e Caim, e Casa Pobre, com Mato Grosso,
Dino Franco não tem critérios para compor; "É momentâneo. A gente costuma receber uma emanação maior; como dizia João Pacífico, é 'a hora que dá os
cinco minutos'", diz ele.
Dino Franco elogia os programas sertanejos da Rádio Esperança, em especial o locutor Cidão, - "um grande radialista e profissional consciente" - e seu
programa Crepúsculo Sertanejo, pela variedade musical que apresenta, conseguindo satisfazer diferentes gerações e apaixonados pela música
sertaneja. A falta criatividade é um problema na música popular, pois...
...para Dino Franco, as "duplas bregas" fazem músicas "todas iguais"

Atual: Como foi o início de sua carreira?
Dino Franco: Em São Paulo, no ano de 1956, formei a dupla Tibagi e Pirassununga e nos apresentávamos na Rádio Nacional que era a coqueluche da
época e hoje é a Globo. Odilon Araújo, locutor oficial da rádio, foi quem nos apresentou e me deu esse pseudônimo. Gravamos um disco 78 rotações
pela RGE com o xote Peão de Minas e a rancheira Falsos Carinhos. A dupla se desfez em 1959.
Atual: Qual foi o próximo passo?
Dino: Formei a dupla Juquinha e Junqueira que durou cerca de três anos. Fomos os primeiros a gravar pela RCA Canden, ainda em 78 rotações,
musicas como Três Mulheres, Maldita Aliança e Mineiro Não Perde o Trem, que foi um grande sucesso. Depois tivemos uma fase de shows em
ambientes noturnos com Belmonte, Amaraí e Zé Maringá.
Atual: Por que shows no lugar do rádio?
Dino: Cascatinha e Inhana estavam entrando na vida noturna em São Paulo e tinham os sucessos Índia, Primeiro Amor; tocávamos músicas paraguaias,
gaúchas e algumas sertanejas. Era evidente naquela época a força da música paraguaia, mexicana e estavam em ascensão o Trio Cristal, Los
Panchos, Miguel Aceves Mejia. Uma minoria do povo da cidade não aceitava a música sertaneja.
Atual: Quando começou a dupla Dino Franco e Mouraí?
Dino: Nos idos de 79, quando Caetano Garrido nos apresentou, e continuamos juntos até hoje.
Atual: E quantos discos gravados?
Dino: Temos 17 lançamentos; com as compilações, temos mais de 20 discos. Com as gravações que fiz sozinho cantando músicas gaúchas e
mexicanas, e com todos os outros com que gravei...A dupla Biá e Dino Franco gravou 6 lançamentos e mais compilações, tenho discos gravados com
Juquinha e Junqueira, Pirassununga e Piratininga, com Belmonte...Fica difícil... tenho que fazer um estudo porque gravei com todos.
Atual: E você fez quantas composições?
Dino: Ah rapaz... tenho muitas composições...Quando eu me aposentei em 1991 apresentei ao INSS mais de 1.000 selos com títulos, número de discos
e nomes de intérpretes de obras de minha autoria para comprovar meu currículo, e de lá para cá eu nunca parei de compor.
Atual: Quais fizeram mais sucesso?
Dino: São várias, entre elas Caboclo na Cidade, Cheiro de Relva, Paineira Velha, Meu Passado, Natureza. Tem Travessia do Araguaia que foi tema da
novela O Rei do Gado. E uma que a rádio Esperança nunca tocou que é Pescador do Ivaí, e foi tema de um documentário brasileiro apresentado na BBC
de Londres (Inglaterra).
Atual: Quais intérpretes gravaram suas composições?
Dino: Tonico e Tinoco, Zico e Zeca, Liu e Léu, Cascatinha e Inhana, Tião Carreiro e Pardinho, Abel e Caim, Xitãozinho e Xororó, Tião Carreiro e Pardinho,
Daniel, Sérgio Reis e Almir Sater...
Atual: Quantos discos você já vendeu?
Dino: É difícil precisar porque o disco nunca obedeceu uma ordem numérica. Teve até um deputado que quis aprovar essa lei e não deixaram, porque
se aprovada as gravadoras teriam que nos prestar contas devidamente corretas. Hoje se elas vendem 5.000 e nos oferecem 500 não podemos provar
o contrário. Vendi muitos discos...Só com o Sérgio Reis e Almir Sater foram mais de um milhão de discos. Caboclo na Cidade, com Xitãozinho e Xororó,
mais de um milhão. Se eu recebi por mais de um milhão de discos, evidentemente vendeu muito mais.
Atual: E com as duplas que atuou?
Dino: Quando formei dupla com Amaraí, firmamos contrato com a Globo Gravações por três anos, um disco por ano. Pela Chantecler, no mesmo
período, dois discos por ano e a primeira gravação, Manto Estrelado, vendeu mais de 200 mil cópias só no lançamento, e assim vai.. É difícil precisar,
mas vendi entre 4 e 5 milhões de discos entre a dupla Dino Franco e Mouraí e outros intérpretes.
Atual: Como você ingressou na Academia Municipalista Brasileira de Letras?
Dino: Por causa do meu currículo. Tem advogado, juiz, promotor, jornalista, compositor, cada um desempenhando uma determinada tarefa. Eu
represento o Raul Torres (da dupla Raul Torres e Florêncio) que foi o introdutor da música sertaneja na radiofonia brasileira. Ocupo a cadeira número
14, que era ocupada por João Pacífico e representava o Catulo da Paixão Cearense.
Atual: Como você vê a música sertaneja raiz na atualidade?
Dino: De bom grado, porque está nascendo da raiz e a finalidade é voltar às origens, porque o sertanejo sempre foi atacado de várias maneiras, várias
influências musicais atacaram o sertanejo, como a canção rancheira, o bolero, o tango, o rock, mas por ser raiz, vem se perdurando.
Atual: Você acha que essa música perdeu espaço?
Dino: É muito relativo esse negócio de perder espaço. Porque no que concerne a perder espaço você tem que considerar a mídia, e para pagar a mídia
você tem que ter muito dinheiro. Se você paga o povo que tem o veículo de mídia na mão, nesse caso a televisão, o rádio, grandes jornais e revistas - a
imprensa de um modo geral -, você difunde qualquer matéria; se você não tem dinheiro para pagar a sua matéria fica esquecida e sua difusão deixa de
ser feita.
Atual: Então, sem o jabá não tem sucesso?
Dino: O jabá é preponderantemente exigido hoje, entendeu?
Atual: A modernização mudou muito a música sertaneja?
Dino: Bastante. No que diz respeito ao arranjo, à confecção do disco, melhorou muito porque a tecnologia avançou e são muitos os recursos técnicos.
Antigamente se gravava mono-oral direto, depois veio o estereofônico com 2 canais, depois 4, 16, 24, 36 e tem muito mais canal; tem até gravação
digital. Agora, o valor artístico em si, no que diz respeito às obras líteromusical, eu não vejo nenhuma melhoria.
Atual: Por que?
Dino: Antigamente, no tempo do 78 rotações, você enumera os sucessos do repertório de...Raul Torres: Mula Preta, Chico Mulato, Cabocla Tereza,
Mourão da Porteira, Do Lado que o Vento Vai, Cavalo Zaino, e assim por diante. Tonico e Tinoco, quantos sucessos? Camisa Preta, Mão Criminosa,
Chico Mineiro... E quantos sucessos fizeram Cascatinha e Inhana? Hoje, as duplas que estão em ascensão, você enumera quantos sucessos? Um ou
dois, mesmo com a força da mídia. Então eu não vejo integração total da música sertaneja nem no disco nem na radiofonia. Não vejo vantagem nisso.
Vejo naqueles artistas que não pagaram a mídia, nunca tiveram a mídia a seu serviço para poder ter ascensão e tiveram sucesso ininterrupto um atrás
do outro, como Tonico e Tinoco, Raul Torres, Zé Carreira e Carreirinha, que são os nossos ancestrais.
Atual: Há uma fertilidade de duplas; os temas condizem com a música sertaneja?
Dino: O que se nota nas duplas do momento, que eu chamo de duplas bregas, o tema é só amor, amor, amor... Você ouve uma canção de um CD e não
precisa ouvir mais porque são todas iguais. Antigamente você não repetia tema. No tempo do vinil você ouvia 12 músicas e cada uma tinha um tema
diferente; era valsa, toada, rancheira, cateretê...Hoje é um balanço só, um ritmo só.
Atual: O que você ouve?
Dino: Ouço e gosto de todas, mas que tenham conteúdo, mensagem, que conte uma história. Porque a música sertaneja que não conta uma história
deixa de ser música sertaneja
Atual: Qual sua previsão para a música sertaneja?
Dino: Hoje as músicas são muito mais para dançar e a música sertaneja foi feita para se ouvir. Se bem que algumas duplas estão gravando corrido,
arrasta pé, xote, forró, vanerão, para alcançar um publico dançante em outras regiões e porque tem aumentado muito os salões de danças.
Atual: Qual o seu último trabalho?
Dino: Eu participei de um disco este ano com o Daniel, que é um resgate da música sertaneja e se chama Meu Reino Encantado. É um disco tipicamente
sertanejo e a estimativa é ultrapassar um milhão de cópias vendidas. No lançamento vendeu mais de 150 mil. Tenho as músicas Cheiro de Relva, com as
Irmãs Galvão e Minha Mensagem, a única legítima moda de viola inserida no disco, onde cantamos com Daniel.
Marcos A. Barbosa