MARCOS: Como tem sido sua vida longe da política administrativa da cidade?
MANOEL: Eu nunca estou longe da política da cidade. Para o homem público, quando ele está fora, é quando ele está mais perto, pensando, analisando
e vendo o que está se fazendo naquele pedaço de chão que ele já teve a alegria de governar.
MARCOS: Tendo essa possibilidade de analisar, o que mudou nesse espaço de tempo?
MANOEL: Para mim não renovou nada. Eu deixei o cargo ontem não me cabe analisar a administração do outro, mas quem quiser analisar é só ouvir os
vereadores. Se o prefeito tiver 13 vereadores ele é ótimo, se tiver 6 é regular, se tiver 4 é deficiente. Sem precisar fazer uma pesquisa ampla a gente
fica sabendo se ele está administrando a contento da população ou se a população está descontente com ele. Eu acho que devo dar força para o
governo municipal governar bem. Estou acreditando no que ele pretende fazer e acho que ainda não me é dado o direito de criticar.
MARCOS: Quem perdeu a eleição em 1982, o PDS ou o "Mané Facão"?
MANOEL: Quem perdeu, na verdade, foi o PDS. Foi uma estrutura montada há 20 anos, tornou-se arcaica e, automaticamente, quem estava no barco
soçobrou. Eu não era o dono do barco, era apenas um navegante.
MARCOS: O barco soçobrou. E o PDS acabou?
MANOEL: Não. O grande impacto foi no estado de São Paulo. Tancredo foi glorificado, santificado, e seis meses depois se elege Jânio Quadros contra
todas as forças que estavam com Tancredo.
MARCOS: E a nível municipal?
MANOEL: A nível municipal o PDS é mais forte do que o PMDB.
MARCOS: Mesmo em Rancharia?
MANOEL: Não. Em Rancharia não. Mas no total do 5700 municípios brasileiros ele é o partido mais forte. Poderá não ser no futuro, porque agora vamos
ter que dividir o pão entre os que conseguirem se transformar em partido. A pluralidade partidária é sinal de que a democracia funciona. O bipartidarismo
não é típico de democracia, é um sintoma real de ditadura.
MARCOS: "Mané Facão" é um político democrático?
MANOEL: Altamente democrático.
(nesse momento chega, atrasado, nosso fotógrafo e passa a fazer parte da entrevista)
MARCOS: Comentou-se que o senhor esperava o resultado das eleições paulistanas. "Mané Facão" fica no PDS ou vai para o PTB?
MANOEL: Não. Eu não esperei o resultado das eleições. Eu já era um homem do PTB logo depois que o PDS perdeu as eleições. Eu pretendia voltar às
minhas origens que é o PTB de Getúlio Vargas, a filosofia trabalhista de Alberto Pasqualino, que data de 1930. Como nós estávamos mergulhados num
bipartidarismo, não havia opção: ou era A ou B. E eu fui A.
MARCOS: O senhor já está filiado ao PTB?
MANOEL: Ainda não estou filiado por falta de tempo. E nem foi a vitória de Jânio que me levou para o PTB. Tanto que eu vou fazer pregação cívica,
filosófica. Não se pode pregar o homem. Se amanhã ele desaparece, o partido segue. Partido prá mim só com filosofia. O PT, PTB, PDC, PDS, PFL têm
uma filosofia definida para pregar no palanque.
MARCOS: Com a entrada de "Mané Facão" o PTB será um partido forte?
MANOEL: O PTB já é um partido forte em Rancharia. Devido à nossa vivência política, dá um pouco mais força, mais dinâmica, e isso muda o aspecto
político e social de Rancharia.
MARCOS: Sua candidatura é uma aspiração pessoal ou partidária?
MANOEL: É partidária e aspiração do povo. Eu digo a você que devo alcançar a metade dos votos necessários só em Rancharia. São votos que estarão
em minha mão e eu não vou dar de graça. Vou lutar em toda a Alta Sorocabana e Alta Paulista.
MARCOS: O senhor tem certeza da vitória?
MANOEL: Ninguém tem certeza da vitória. Quando eu perdi a primeira vez eu pensava que ia ganhar. Pode ser até o Ulisses Guimarães. No meio da
campanha ele tem um enfarte. Ganhou o quê? Ganhou um enfarte.
MARCOS: "Mané Facão" foi um bom deputado?
MANOEL: Eu fui um homem que trabalhou muito nas comissões. Fui assíduo e participei de grandes debates. Considero-me um bom parlamentar. Não
deu para 'desdoirar' e fazer vergonha para Rancharia.
PAULO: Sabe-se de sua assiduidade às sessões. O que o senhor tem dizer sobre "jetton"?
MANOEL: O país é muito grande. O deputado federal está hoje em Brasília, amanhã tem que estar em Porto Velho... Eu acho que ele poderia ter uma
tolerância nas faltas. Até 25% ganhando. O parlamentar precisa ser bem pago, a prefeitura precisa pagar bem ao prefeito para ele se apresentar bem e
aprender. Eu fui um administrador que viajei para Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Brasília, por conta da prefeitura. Eu preciso conhecer forças
política e o meu país para poder administrar meu município. Porque ele vive em função de um todo. Eu só avalio o meu vendo um melhor ou muito pior. Não
é nenhum crime ganhar bem. É crime governar mal, não ir ao Congresso, não ir à Câmara, ao Senado. E o que não pode é o seguinte: uma sessão não
existir e ganhar o jetton. E se receber cuide prá devolver porque não é dele. Isso é crime.
MARCOS: O senhor já tem uma plataforma para a campanha?
MANOEL: Que plataforma pode-se elaborar prá ser deputado estadual? Na atual conjuntura onde o deputado não pode aumentar as receitas e nem as
despesas, onde ele está amordaçado, manietado por uma série de leis que não permite que ele legisle... Que plataforma ele pode gritar?
PAULO: Essa anotação (a tinta) na palma da mão, é para não esquecer?
MANOEL: É. Chama-se regra mnemônica. Regra de memória.
MARCOS: Quais as suas sugestões para a Constituinte?
MANOEL: Quais são os políticos brasileiros que podem ter projetos para a Constituinte? Quem está fazendo a Constituinte é Afonso Arinos e mais um
grupo de 10, 12 juristas. É uma comissão com 50 pessoas. Na verdade são os juristas que vão fazer a Constituição.
MARCOS: Mas o congresso não pode influir?
MANOEL: Sim, mas muito pouco.
PAULO: O que o senhor acha da participação das minorias, como os homossexuais, negros, índios e pequenos partidos políticos,
como o Partido Humanista, para a elaboração da Constituição?
MANOEL: É bom porque vem do povo. Eles podem não dar uma idéia muito precisa, mas dão um sentido daquilo que a comunidade negra precisa, do que
a comunidade indígena precisa e tudo isso vai ser burilado em todas as arestas pelos juristas.
PAULO: Lula e Brizola retomam a luta pelas diretas. Como "Mané Facão" se posiciona?
MANOEL: Não tem validade nenhuma. O negócio tá definido. O presidente da República foi eleito para seis anos. Porque nós vamos voltar atrás agora?
Começamos a administrar com o homem, com problemas de ordem nacional e internacional, e imediatamente partiram para uma campanha tipo Tancredo
Neves, jogando o povo na praça pública? 1º: não vai ter respaldo de todos os partidos, exceto PT e PDT; 2º: não vai ter respaldo no Congresso
Nacional.
PAULO: É um jogada política?
MANOEL: É claro!
PAULO: Mas o povo vai à ruas.
MANOEL: Como é que você sabe?
PAULO: O povo já foi às ruas fazer campanhas pelas direta, pressupõe-se...
MANOEL: Você me desculpe mas você está pressupondo muito mal. Você está partindo de uma premissa errada.
MARCOS: O senhor acha que o povo não sai às ruas pelas Diretas-86?